terça-feira, 4 de outubro de 2011

Matéria orgânica: a história da proposta de aula interdisciplinar que virou projeto supimpa

Acho que o fungo, aquele, que contaminou o fórum do Moodle, e que fez do meu comentário um texto, também se fez presente na aula passada, na elaboração de uma proposta interdisciplinar para uma aula de 50 minutos.

Como elaborar uma aula de 50 minutos com a matéria prima que tínhamos? Junte um um grupo de professores em formação composto por uma estudante de artes visuais, um estudante de geografia, uma estudante de educação física, um casal formado por uma estudantes de letras e um estudante de física a um estudante de biologia em véspera de estágio, com a idéia fixa de construir uma composteira com os alunos! Em seguida tente reunir tantas potencialidades em apenas 50 minutos. O nosso amigo fungis mentalis, faceiro, resolveu reproduzir-se. O ambiente era propício e altamente nutritivo. A aula de 50 minutos virou projeto!


A idéia do colega me motivou bastante porque quando criança eu fui muito engajada nas questões ecológicas. Eu era monitora ecológica do clube de ciências da minha escola. Uma das professoras que marcam a minha trajetória como professora, grande influência nesta escolha tão difícil, também tomou para si o desafio do colega da Biologia. Não satisfeita com a solução do problema do lixo orgânico, na comunidade escolar, após a construção da composteira comunitária, foi desenvolvendo um projeto atrás do outro. Recebíamos o lixo seco da comunidade: papel, latinhas, garrafas pet, e o vendíamos. Com a renda pagávamos nossas saídas de campo para lugares como o Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos da UFRGS, ou a Floresta Nacional de São Francisco de Paula. As expedições foram criando necessidades. E com o dinheiro da venda do lixo seco produzido pela comunidade a escola também ajudou na compra de equipamentos de mergulho, rapel, e materiais utilizados em nossas aventuras. O problema do lixo é grande, vendê-lo era uma solução excelente. Mas o lixo também ganhou forma na reciclagem e reaproveitamento: papel reciclado, vassoura de garrafa pet e um sem número de utilidades foram pensadas para o que sempre é considerado um problema. Lembro-me de ter sido a criadora de uma luminária feita com sucatas que foi vendida em uma das feiras de trocas solidárias da escola.

Hoje em dia a professora Solange, mentora do projeto, coordena as atividades de educação ambiental do município de Novo Hamburgo. O projeto foi objeto de pesquisa da estudante Alessandra Pedroso, do curso de Especialização em Educação Socioambiental do Centro Universitário FEEVALE, estudo que pode ser lido na íntegra no endereço http://ged.feevale.br/bibvirtual/Monografia/MonografiaAlessandraPedroso.pdf.


Todas estas experiências vieram à tona na última aula. Nosso colega da biologia falou sobre um documentário que eu conhecia de nome, e que ainda estou por pesquisar. Lixo Extraordinário, sobre um trabalho desenvolvido pelo artista brasileiro Vik Muniz, poderia ser o grande disparador do projeto. Com direção de Lucy Walker, e co-direção de Karen Harley e João Jardim, trata-se de um projeto cultural do artista junto à comunidade do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, RJ, conhecida por possuir o maior aterro sanitário da América Latina. Vik Muniz, conhecido por reproduzir imagens com temas diversos a partir de materiais inusitados, como calda de chocolate, alimentos, doces,.. trabalha as próprias fotografias retiradas da comunidade no processo com o lixo por ela coletado.


Pensamos em diversas ações na criação do projeto, que poderia culminar com atividades reflexivas após a construção da composteira. Entre elas, a produção de esculturas com lixo seco e produções textuais acerca da palavra "lixo".

Saberes docentes hoje e algumas reflexões sobre o contínuo aprender do professor de artes visuais.

Nota: O texto abaixo nasceu no fórum do Moodle da disciplina de Ensino e Identidade Docente, mas acho que tinha um fungo no fórum. O fungo fez um punhado de idéias crescer e o que era para ser um simples comentário acabou virando um texto de duas páginas, onde acrescento as minhas incursões pelos caminhos da arte-educação e minha prática como mediadora na Fundação Iberê Camargo.

A leitura do capítulo 3 do livro Ensaios Pedagógicos, do Lino de Macedo, me fez pensar em inúmeras relações com os textos lidos anteriormente para a disciplina de Ensino e Identidade Docente, bem como com o que tem sido trazido pelos colegas aqui no fórum. 

A colega Jayne falou sobre as diferenças nas relações entre a teoria e a prática na formação docente. Sim! Sentimos isso em todas as áreas! Nas Artes Visuais isso não é muito diferente. Existe uma diferenciação entre os alunos da licenciatura e do bacharelado que chega muitas vezes ao preconceito de que o bacharel aprende mais. Da forma como o curso está estruturado, talvez. Mas para ser um bom professor na nossa área, sabemos da necessidade de correr muito atrás dos conhecimentos para poder transmiti-los da melhor forma. Sabemos o quão difícil é estabelecer relações entre os conhecimentos para poder explicar conceitos da forma mais simples possível para o aluno. E sinceramente, é possível que um aluno da licenciatura, que objetive trabalhar em sala de aula, se contente com aquilo que é passado na faculdade? Não! Não é possível! Digo isso pensando na minha área de conhecimento... Porque enquanto a arte contemporânea diz-se cada vez mais fundida com a própria vida, nós professores fazemos um esforço gigantesco para acompanhar os seus movimentos e tornar isso uma realidade. 

Enquanto Tardif e Raymond falam dos saberes que se constituem na prática, relacionados à rotina escolar, às dinâmicas adotadas pelos professores em sala de aula, o que entendo como o desenvolvimento de uma metodologia, de um fazer próprios, Nunes e Macedo falam das mudanças nas relações aluno-professor na atualidade. Se antes o professor tinha a tarefa de ensinar somente, agora sua tarefa é também a de aprender. Frente aos desafios impostos na era da informação, Lino de Macedo, p. 36, considera fundamental a "valorização dos processos de aprendizagem dos próprios professores, [...], investimento pessoal e institucional de seu aperfeiçoamento contínuo”.  

"No entanto, considerando que tanto a escola como os professores mudaram, a questão dos saberes docentes agora se apresenta com uma outra 'roupagem', em decorrência da influência da literatura internacional e de pesquisas brasileiras, que passam a considerar o professor como um profissional que adquire e desenvolve conhecimentos a partir da prática e no confronto com as condições da profissão." (Nunes, p. 32).

Embora a prática que exerço como mediadora no museu onde trabalho (também uma atividade educativa) se dê fora do ambiente escolar, envolvendo assim outras problemáticas, não consigo imaginar um bom trabalho docente sem aliar isto a uma pesquisa constante. E pensando especificamente na minha área, quando Lino de Macedo questiona o tempo que o professor dedica (ou o tempo que lhe é permitido dedicar) a atividades de integração com a comunidade escolar, à sua própria produção ou às atividades específicas da sua área de formação (cursos, seminários, palestras), penso na importância do professor de Artes Visuais estar conectado com as produções contemporâneas, além de estar ele próprio produzindo. A produção do professor, o confronto com o pensamento de sua área de conhecimento e suas teorias, são atividades que não só enriquecem seu trabalho em sala de aula, como o fazem se colocar no lugar do aluno.

A propósito, penso que um bom ambiente de aprendizagem do professor é a sala de aula. Se ele não se sente aprendendo ou sendo desafiado neste contexto, logo também pode senti-la aborrecida, chata, cansativa.” (Macedo, p. 50).

A este respeito, posso falar de uma situação realmente intrigante na minha prática. No curso temos uma disciplina chamada Ciências da Arte: Campo Social, onde tratamos das questões como a constituição de um campo artístico, quem são os seus atores e como se dão as relações dentro do mesmo. Questões como o valor da obra de arte e seus porquês, o que é arte e quem elege os objetos que vemos nos museus fazem parte do repertório desta disciplina. E durante uma mediação para um grupo de crianças entre 6 e 7 anos um menino veio me perguntar “por que arte custa caro?”. Eu me senti realmente desafiada. Ele fez uma pergunta aparentemente ingênua, mas que me fez pensar bastante em um grande leque de questões. Se eu soube responder? Me vi na posição da minha professora de ciências da quarta série, que um dia me respondeu assim: “Não sei, Taila! O professor nem sempre sabe de tudo!”. E isso foi uma descoberta gigantesca para mim! Eu respondi. Mas me peguei pensando em todas as questões inerentes ao mercado de arte. E fiquei na dúvida se era isso mesmo. E se a resposta que eu dei se adequava ao que eu pensava sobre a arte ou se era só um discurso acadêmico adaptado a uma linguagem simples.

Referências:

NUNES, CÉLIA MARIA FERNANDES. Saberes docentes e formação de professores: um breve panorama da pesquisa brasileira. Educ. Soc., Campinas, v. 22, n. 74, 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302001000100003&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 29/09/2011.

MACEDO, Lino. Ensaios pedagógicos: como construir uma escola para todos? Porto Alegre: Artmed, 2005. p. 31- 58

TARDIF, Maurice; RAYMOND, Danielle. Saberes, tempo e aprendizagem do trabalho no magistério. Educ. Soc., Campinas, v. 21, n. 73, Dec. 2000 . Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010173302000000400013&lng=en&nrm=iso>
Acesso em: 29/09/2011.